Se Mortal Shell, lançado em 2020, chamou atenção justamente por apresentar uma versão mais compacta e diferente da fórmula soulslike, Mortal Shell II parte de uma proposta bem mais ambiciosa. O novo jogo preserva a identidade sombria e grotesca do original, mas amplia praticamente tudo: o mundo é maior, existem mais personagens, armas, possibilidades de builds, masmorras e formas de confrontar os inimigos. E o mais importante é que esse crescimento não parece ter sido feito somente para dizer que a sequência é “maior”. Na maior parte do tempo, ele realmente torna a experiência mais interessante, apesar de alguns bugs que tivemos neste acesso antecipado, mas que a desenvolvedora prometeu arrumar no patch de lançamento do jogo no dia 20 de agosto.
De volto à Carcaça
Apesar do nome, Mortal Shell II funciona muito mais como uma releitura independente do que como uma continuação direta. A aventura continua em Fallgrim, mas a história apresenta um novo personagem principal, o Arauto, uma criatura capaz de ocupar os corpos de guerreiros mortos e usar suas habilidades. Dessa vez, sua missão envolve recuperar os ovos roubados da Undermether, que estão sendo usadas para espalhar corrupção através da área. É uma premissa bastante estranha, e o jogo definitivamente não faz questão de explicar tudo de maneira convencional (como qualquer outro soulslike).
Essa narrativa misteriosa continua sendo uma das características mais marcantes da série. A história principal pode parecer um tanto confusa, mas o desenvolvimento individual das diferentes carcaças ajudam bastante a criar uma conexão maior com aquele mundo. Conforme você aumenta o vínculo com cada personagem, descobre suas memórias, tragédias, filosofias e histórias pessoais. São esses pequenos relatos que dão um pouco mais de humanidade a um universo habitado por criaturas grotescas, cultistas e guerreiros perturbados.
Um enfrentamento mais rápido, agressivo e recompensador
A maior mudança de Mortal Shell II fica no enfrentamento. O primeiro jogo utilizava uma estrutura mais tradicional de soulslike, com gerenciamento de stamina ditando o ritmo dos ataques e esquivas. Aqui, a stamina simplesmente desapareceu. Você pode atacar e esquivar à vontade, e isso deixa as batalhas muito mais rápidas e agressivas. No lugar dela entra o Resolve, um recurso obtido principalmente ao acertar ataques corpo a corpo e usado para ativar habilidades, ataques à distância e outras ferramentas do personagem.
Essa mudança também altera bastante a maneira como você encara os inimigos. Mortal Shell II não pretende que você fique somente esperando uma abertura para atacar. É preciso tomar a iniciativa, acertar golpes, construir determinação e desfrutar os momentos certos para executar habilidades mais poderosas. O sistema de parry e as barras de quebra dos inimigos também dão uma importância enorme ao domínio dos padrões de ataque. A janela para aparar golpes não é tão cruel quanto em alguns outros jogos do gênero, mas ainda exige atenção e prática.
Você pode ser bastante ofensivo, mas isso não significa que o jogo ficou fácil. Os inimigos seguem agressivos e conseguem punir de forma rápida uma sequência de erros. Até mesmo a mecânica de ser expulso da carcaça ficou mais interessante: quando seu corpo é destruído, você assume sua forma original e precisa lutar para recuperar sua carcaça, ao invés de simplesmente morrer ou voltar imediatamente para o corpo. Essa possibilidade de reconstruir sua própria sobrevivência durante o enfrentamento preserva a tensão até os últimos segundos.
Ganhando personalidade
O conceito das carcaças continua sendo o grande diferencial de Mortal Shell II, mas agora ele fica muito mais desenvolvido. São oito carcaças diferentes espalhados através do mundo, e cada um funciona quase como um personagem jogável próprio. Eles não se diferenciam somente através da quantidade de vida ou por alguns atributos: cada um tem habilidades ativas, resistências, características especiais e possibilidades de evolução que mudam de verdade a maneira como você joga.
Tiel, por exemplo, é extremamente ágil e pode ficar invisível para se reposicionar e fazer ataques críticos. Gragu é muito mais bruto, com golpes pesados e uma mecânica de cura própria. Mert consegue até mesmo parar o tempo para atacar os inimigos, enquanto Proxima tem uma habilidade semelhante a um gancho que permite puxar inimigos ou se aproximar deles, seguida por um ataque elétrico. São diferenças grandes o suficiente para fazer você realmente querer experimentar outros personagens, ao invés de escolher um e simplesmente esquecê-los. Claro, que no meu gameplay eu testava um e logo depois voltava para a Proxima por razões de… bem vamos voltar a review.
A progressão em Mortal Shell II também ficou muito mais interessante. Cada personagem tem memórias que poderão ser desbloqueadas, liberando novas categorias de melhorias. Ao todo, são doze upgrades para cada um, com três níveis de evolução. Isso cria uma quantidade considerável de possibilidades para montar uma configuração que combine com seu estilo. E existe uma decisão de design interessante: os pontos investidos nas carcaças poderão ser devolvidos e redistribuídos gratuitamente. Assim, você não precisa ter medo de experimentar.
Essa liberdade é importante porque o jogo contínuamente apresenta situações que favorecem determinadas builds. Uma área dominada por fogo, por exemplo, pode fazer você querer investir em um personagem resistente a queimaduras. Um inimigo particularmente difícil pode ser confrontado de maneira completamente diferente simplesmente trocando de personagem e redistribuindo suas melhorias. O sistema estimula a experimentação sem transformar cada escolha inicial em uma sentença permanente.
Mais possibilidades
A expansão não ficou restrita aos personagens. Mortal Shell II também praticamente dobra a quantidade de armas disponíveis, com oito armas corpo a corpo e oito armas de longo alcance. As armas maiores são mais lentas e poderosas, enquanto as menores favorecem velocidade e ataques mais rápidos. Essa variedade permite combinar diferentes armas e carcaças para encontrar configurações bastante específicas.
As armas corpo a corpo funcionam de maneira relativamente tradicional, com ataques leves e pesados que poderão ser combinados em sequências. Existe, entretanto, uma camada interessante de experimentação na escolha de quando inserir um golpe pesado dentro de um combo. Armas diferentes possuem tempos de preparação e alcances distintos, então aprender quais ataques funcionam melhor contra determinados inimigos acaba sendo parte importante do domínio do sistema.
É nas armas de longo alcance que o jogo realmente começa a brincar com possibilidades mais absurdas. Além de opções convencionais como a besta, existem equipamentos muito mais estranhos, incluindo um tipo de esqueleto amaldiçoado dentro de uma gaiola e um alaúde mágico capaz de confundir os inimigos. O alaúde, por exemplo, pode fazer grupos de adversários atacarem uns aos outros, funcionando como uma incrível ferramenta de controle de multidões.
Tudo isso é complementado pelas pedras Tar, modificadores que poderão ser equipados em suas armas. Algumas aumentam dano ou oportunidade de crítico, enquanto outras adicionam propriedades elementais ou até mesmo novos ataques. O interessante é que nem todas funcionam com qualquer arma, obrigando você a pensar na combinação entre equipamento, personagens e habilidades. É justamente a união desses sistemas que faz a construção de personagens parecer tão aberta.
Fallgrim virou um mundo muito mais interessante
Talvez a transformação mais inacreditável seja Fallgrim. O pequeno mundo do primeiro Mortal Shell foi transformado em uma área muito maior e interconectada, cheia de caminhos, cavernas, masmorras, atalhos, regiões secretas e regiões completamente diferentes umas das outras. Ao invés de simplesmente seguir uma sequência de caminhos até encontrar o próximo chefe, você contínuamente encontra alguma coisa no horizonte que desperta curiosidade.
O design trabalha muito bem essa sensação de exploração. Não chega no nível de Elden Ring, mas você pode estar seguindo na direção a um objetivo e enxergar uma entrada escura, uma estrutura distante ou um caminho que parece trazer para algum lugar importante. É difícil simplesmente ignorar. O mapa ajuda a não ficar completamente perdido, embora pudesse oferecer ferramentas melhores para marcar pontos de interesse.
As masmorras espalhadas através do mundo também ajudam a quebrar o ritmo da aventura principal. Algumas funcionam como pequenos labirintos, outras apresentam puzzles, portas trancadas ou arenas de enfrentamento. Elas não são necessariamente experiências revolucionárias individualmente, mas funcionam muito assim como pequenas aventuras escondidas dentro de uma experiência maior.
E existe uma qualidade importante na exploração: o jogo não entrega checkpoints o tempo inteiro. É perfeitamente capaz ficar sem itens de cura enquanto fica explorando e precisar decidir se continua avançando ou se retorna para um ponto seguro. Essa sensação de risco torna a exploração muito mais envolvente, porque encontrar um novo checkpoint ou conseguir voltar para uma área conhecida realmente traz uma sensação de alívio.
Um bicho grotesco em cada canto
Visualmente, Mortal Shell II sabe muito bem o tipo de mundo que pretende construir. A estética de fantasia gótica e decadente do primeiro jogo se mantém, mas agora existe espaço para trazer essa identidade muito mais longe. Fallgrim parece mais suja, corrompida e pesada, enquanto suas criaturas parecem ter sido retiradas de algum pesadelo.
Os inimigos são um dos grandes destaques. Existem cavaleiros, cultistas, criaturas humanoides deformadas, morcegos explosivos, aranhas com rostos humanos e até monstros que parecem simplesmente não deveriam existir. Os chefes continuam a mesma lógica, com designs bastante criativos e, em alguns casos, completamente absurdos. O resultado é um mundo que consegue ser assustador, repulsivo e até engraçado ao mesmo tempo.
A direção de arte também ajuda a transformar a exploração em uma experiência visual. As paisagens são grandes, decadentes e cheias de elementos estranhos, e existem vários pontos espalhados através do cenário que incentivam o jogador a simplesmente parar para observar a vista. Mesmo quando alguns inimigos acabam reaparecendo com frequência ou determinadas masmorras continuam estruturas parecidas, a atmosfera continua sendo um dos pontos mais fortes da aventura.
Nem tudo é perfeito
Apesar de todas as melhorias, Mortal Shell II não é completamente livre de problemas. Alguns elementos técnicos podem incomodar, principalmente ações relacionadas ao clique dos analógicos. Em determinadas situações, correr ou usar o sistema de mira pode ser um pouco inconsistente com amira automática.
Como dito no começo da review, houve alguns bugs durante a minha experiência analisando Mortal Shell II, incluindo atravessar paredes e ficar apreendido dentro delas, alguns bugs gráficos, e poquíssimas vezes o jogo dava problema a ponto de fechar, essa última ocorreu umas três vezes durante as minhas vinte horas de gameplay . A boa notícia é que esses problemas serão corrigidos no patch de lançamento e assim esperamos.
Considerações finais
Mortal Shell II expande a fórmula do original sem perder sua identidade. Com enfrentamento mais agressivo, oito personagens, várias armas, diversas combinações de builds e um enorme mundo aberto, a sequência entrega uma experiência mais ambiciosa e divertida. Apesar de alguns problemas de repetição, balanceamento e bugs, é uma ótima evolução e uma incrível opção para fãs de soulslikes.
A review de Mortal Shell II foi feita com uma cópia cedida através da
Playstack.
Distribuidora: Playstack
Desenvolvedor: Cold Symmetry
Gênero: Ação, rpg, soulslike
Disponível para: PlayStation 5, Xbox Series e PC.
Data de lançamento inicial: 20 de agosto de 2026
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Com informações de Portal do Nerd


